Crise aumenta as frustrações

Num cenário de pouca oportunidade no mercado, satisfação é deixada de lado pelos profissionais

PUBLICADO EM 30/07/17 – 03h00 – JULIANA GONTIJO – Jornal O TEMPO

A crise econômica no país ajuda a acentuar a insatisfação com a carreira, segundo especialistas. Com o desemprego em alta, o clima nas empresas piora, aumentando a pressão e a carga de trabalho e reduzindo assim as perspectivas profissionais, observa a especialista em gestão estratégica de pessoas Cláudia Santos. “Nesse cenário, com poucas oportunidades de emprego, a satisfação fica de lado. O objetivo é pagar as contas”, diz ela.

O estudo Projeto 30, feito pela Pesquiseria, encomendado pela Giacometti Comunicação, mostra o desânimo dos profissionais na casa dos 30 anos e também o impacto da crise em suas vidas. Conforme o levantamento, 64% dos mil entrevistados já abriram mão de alguma coisa no orçamento por causa da crise e 29% têm evitado fazer dívidas com medo de perder o emprego.

O coordenador do estudo, Tiago Faria, ressalta que a pesquisa foi feita durante a crise. “De fato, a crise potencializa a falta de oportunidade, pois o mercado de trabalho acaba se fechando. Assim, o que era difícil fica ainda mais. E quem tem o seu emprego quer mantê-lo, mesmo que não esteja muito feliz” analisa.

A especialista em carreiras do Ibmec-MG Camila Malta também ressalta que a crise pode provocar mais desgaste profissional. “Num momento em que há muitas demissões em uma empresa, quem fica tem receio de ser o próximo a ser mandado embora. Logo, isso cria um clima organizacional ruim”, observa.

Também ajuda a elevar a insatisfação a falta de perspectivas de aumento salarial. “Mesmo assim, há pessoas que, para voltar ao mercado, aceitam ganhar menos que no emprego anterior e se frustram. Para evitar isso, o ideal é considerar que retornar ao mercado, mesmo ganhando menos, é um degrau”, observa.

A especialista ressalta que não há receita para evitar a frustração profissional. “Mas buscar o autoconhecimento e realizar algo que faz sentido para você pode ajudar. É importante parar e refletir sobre os motivos das escolhas. Da mesma forma que uma pessoa faz um planejamento financeiro, é importante fazer um planejamento de carreira pautado na realidade”, diz.

Camila frisa que o mercado de trabalho é dinâmico e, logo, as profissões também. “Houve uma época em que as pessoas ingressavam numa empresa e se aposentavam lá, o que dificilmente acontece hoje”, afirma.

O CEO da empresa O Melhor do Marketing, André Damasceno, 30, observa que a geração que está na casa dos 30 anos não quer apenas o retorno financeiro, quer também qualidade de vida, o que interfere na satisfação com o trabalho.

Para ele, o profissional tem que estar atento às mudanças e buscar adaptar-se. “Um exemplo das transformações que estão acontecendo vem do transporte. Antes, tinha o táxi, depois veio o Uber. O mundo está mudando, e muita coisa que hoje é ensinada nas escolas não vai valer em alguns anos”, analisa.

Motivos. 

Levantamento mostra que a insatisfação da geração dos 30 anos tem relação com economia pouco promissora, falta de autoconhecimento e excesso de expectativa com resultados.

Profissionais especializados que mudam de rumo durante a vida laboral são a tendência do mercado, diz o coordenador acadêmico do MBA em marketing digital, André Miceli. “Serão várias formações, não necessariamente várias graduações”, afirma.

Para ele, os avanços tecnológicos estão alterando a natureza das relações de trabalho e criando novas profissões. “Muitas profissões vão mudar completamente, e existem várias oportunidades para quem souber explorá-las. Por outro lado, ter essa capacidade vai exigir uma formação completamente nova”, diz.

Idade avançada pode dificultar a mudança de rumo

O avanço da idade e a obrigação de sustentar uma família podem dificultar a mudança de carreira, observa a hoje chef de cozinha e professora Sheilla Furman, 33. Ela conta que sua primeira graduação foi em publicidade e propaganda. “Fiz estágio, mas não cheguei a trabalhar na área”, diz ela.

Foi durante o projeto de conclusão do curso que ela começou a se interessar pela gastronomia. “No ano seguinte ao da formatura, comecei outro curso”, conta.

Para ela, a idade (21 anos na época), o apoio e a estrutura oferecida pela família ajudaram a mudar o rumo de sua carreira. “Quando a pessoa vai ficando mais velha é mais complicado trocar de área. Também ajudou o fato de não ter filho”, diz.

Muitas vezes, a mudança vem de forma inesperada. Foi o que aconteceu com a relações públicas Maria Dolores da Mata. Ela trabalhou na área de comunicação e marketing por mais de 20 anos. “Só que, em 2014, o banco Rural foi liquidado e eu perdi o emprego aos 58 anos de idade. Fui pega de surpresa”, diz.

Dolores lembra que chegou a enviar currículos, mas percebeu que, com sua idade, conseguir nova colocação no mesmo patamar da última seria muito complicado. Dessa forma, ela decidiu empreender com o Atelier Da Mata. “A ideia era possibilitar a busca por lembranças e bons momentos através dos aromas”, explica.

Para ela, a melhor idade para a troca de área, por qualquer motivo, é na casa dos 30 anos. “Nessa fase da vida, a pessoa está mais madura e já tem certa experiência profissional para saber o que quer”, diz.

Confiança. 

Pesquisa Projeto 30 mostra que com a chegada dos 30 anos, a maioria dos entrevistados (63%) considera-se mais madura e mais responsável para encarar a mudança.